RÉVEILLON
#15 E UMA PONTINHA DE MELANCOLIA
Todo réveillon me vem a mesma cena antiga, como filme que insiste em rebobinar sozinho.
Quando criança (ou quase isso), eu realmente acreditava que algo extraordinário acontecia na virada do ano. Não era só um número mudando no calendário. Imaginava fenômenos raros, quase místicos. Uma aurora boreal surgindo indevidamente no hemisfério Sul. Quem sabe um eclipse lunar improvável. O céu abrindo em sinais claros de que o mundo tinha sido reiniciado, a mente infantil é mágica, não é?
O detalhe curioso é que dormia sempre antes da meia-noite, carregando essa expectativa quase épica, como quem perde o final do espetáculo acreditando que ele fora grandioso. Talvez eu já tenha falado disso em algum post perdido por aí, (perdão pela reciclagem temática) mas essa fantasia me acompanhou por muito tempo: o ápice visível quase cinematográfico do movimento de translação da Terra.
Até que um dia, finalmente, eu consegui. Fiquei acordado.
E foi aí que veio a frustração. Nada de auroras. Nada de eclipses. Apenas fogos, abraços apressados, desejos e rituais repetidos em tom automático e a sensação de que tudo seguia exatamente igual ao minuto anterior. Lembro-me de pensar, com uma pontinha de melancolia: “é só isso?”
Hoje, adulto, o fascínio ainda existe, mas mudou de lugar. Já não espero mais que o céu se rasgue em sinais espetaculares. Não busco o frenesi das festas, nem a obrigação de estar feliz, produtivo ou cheio de planos inalcançáveis. A passagem de ano, para mim, virou rito interior, quase secreto convertido em descanso.
Gosto da calmaria, ficar com os meus, atravessar a virada como quem fecha um livro com cuidado, sem pressa de começar outro. Sem listas impossíveis, nem promessas grandiosas feitas apenas para serem quebradas em fevereiro.
Talvez a tal aurora boreal nunca tenha sido no céu. Vai ver sempre tenha sido isso: um pequeno ajuste, discreto, que só acontece quando a gente para de esperar fogos e aprende a ouvir os apelos do coração.
Que 2026 seja um ano gentil, desses que não exigem performances, apenas presença.
Desejo que você encontre descanso onde antes só havia cobrança. Pequenas alegrias despercebidas no cotidiano.
Que estas 365 páginas em branco novíssimas sejam vividas e escritas no seu tempo, e do seu jeito.
Feliz 2026!
Com afeto,
Caco.



Feliz 2026! Afeto, descobertas e prosperidade para vc.